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Vidigal, uma visão privilegiada |
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Balada da Praia do Vidigal Vinícius de Moraes A lua foi companheira |
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Vidigal |
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Os donos da praia |
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| Praia do Vidigal: lazer continua público |
A Praia do Vidigal, em São Conrado, uma das mais bonitas e reservadas da Zona Sul carioca, por pouco não virou propriedade particular do Hotel Sheraton nos anos 60 - para desespero dos moradores da favela que freqüentavam o local desde os anos 40. E por incrível que pareça isso só não aconteceu devido à união - até então inusitada - entre morro e asfalto.
“Tinha muito morador de mansão na Avenida Niemeyer que também se sentiu prejudicado pelo projeto”, lembra Armando de Almeida Lima, ex-presidente da Associação de Moradores do Vidigal na década de 70. “Foi o pessoal do asfalto que entrou com a ação na Justiça. Mas a nossa união também foi muito importante. Conseguimos centenas de assinaturas contra a obra no morro e no asfalto. Na hora do aperto não tem essa de classe social. Logo depois a obra do hotel foi embargada", conta.
O Sheraton foi construído em 1967 no lugar do Hotel Colonial, que dividia a praia com uma antiga colônia de pescadores - também removida durante a obra. O plano de fechar o acesso ao mar foi barrado na Justiça após o abaixo-assinado que correu mansões e barracos da região. Armando conta que a obra só foi novamente retomada quando os proprietários do hotel se comprometeram a erguer uma nova escadaria no lugar da antiga que cortava o Colonial.
“Eles fizeram primeiro uma de madeira que ficou podre rapidinho. Só depois veio a escada de cimento na pedra do lado esquerdo que continua até hoje”, diz.
Colônia e Colonial dividiam a praia
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| Moradores usam escada de cimento como acesso |
A história da Praia do Vidigal sempre esteve diretamente ligada à da favela homônima. Muitos garantem inclusive que os primeiros moradores do morro foram pescadores da antiga colônia. O estofador de móveis Luis Alberto Corrêa e Castro, de 64 anos, morador da parte alta do Vidigal desde os anos 50, conta que a praia sempre foi uma espécie de extensão da favela.
“Hoje ainda temos uma vila olímpica, mas fica muito no alto do morro. E um campo de futebol na favela vizinha. Mas a praia é realmente a diversão preferida do povo. Chega no verão todo mundo desce”, diz Armando.
Segundo ele, a convivência entre turistas, moradores e pescadores sempre foi pacífica e amigável. “Lembro que isso já acontecia desde os tempos do Hotel Colonial. Os hóspedes ficavam em umas cabanas na beira da praia e às vezes ofereciam até água gelada para as crianças do morro. Aliás, temos muitos vizinhos ricos e isso nunca foi problema”, diz.
Sobre o projeto do Sheraton de fechar a praia, ele garante que nunca acreditou que fosse virar realidade. Mas, claro, ficou preocupado. “A praia é pública e todo mundo sabe disso, mas não dá para bobear! Acho que os donos do hotel queriam fazer um deck, um atracadouro, ou algo parecido. Para eles seria ótimo mas não colou”, afirma Luiz Alberto. “A praia não é do Sheraton. O Sheraton é que foi construído na nossa praia. Nossa não, de toda a cidade! Deu um burburinho danado na época mas depois resolveram. E hoje a praia continua sendo a nossa maior diversão”, finaliza.
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| Prédio do Hotel Sheraton, visto ao fundo |
Abaixo, poema do poetinha Vinícius que costumava freqüentar o local nos anos 50 e 60.
Balada da Praia do Vidigal (Vinícius de Moraes).
A lua foi companheira
Na Praia do Vidigal
Não surgiu, mas mesmo oculta
Nos recordou seu luar
Teu ventre de maré cheia
Vinha em ondas me puxar
Eram-me os dedos de areia
Eram-te os lábios de sal.
Na sombra que ali se inclina
Do rochedo em miramar
Eu soube te amar, menina
Na Praia do Vidigal...
Havia tanto silêncio
Que para o desencantar
Nem meus clamores de vento
Nem teus soluços de água.
Minhas mãos te confundiam
Com a fria areia molhada
Vencendo as mãos dos alísios
Nas ondas da tua saia.
Meus olhos baços de brumas
Junto aos teus olhos de alga
Viam-te envolta de espumas
Como a menina afogada.
E que doçura entregar-me
Àquela mole de peixes
Cegando-te o olhar vazio
Com meu cardume de beijos!
Muito lutamos, menina
Naquele pego selvagem
Entre areias assassinas
Junto ao rochedo da margem.
Três vezes submergiste
Três vezes voltaste à flor
E te afogaras não fossem
As redes do meu amor.
Quando voltamos, a noite
Parecia em tua face
Tinhas vento em teus cabelos
Gotas d'água em tua carne.
No verde lençol da areia
Um marco ficou cravado
Moldando a forma de um corpo
No meio da cruz de uns braços.
Talvez que o marco, criança
Já o tenha lavado o mar
Mas nunca leva a lembrança
Daquela noite de amores
Na Praia do Vidigal.
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