A Instituição


Fundada pelo casal Elma e Anônio Carlos de Alleluia, em 18/03/2003, a organização tem seu nome em homenagem à avó de Antonio, Alzira Aleluia, que chegou no Jardim Vidigal em 1948 e, como lavadeira, criou seus filhos. Dona Conceição, mãe de Antonio, com sua humildade, determinação preparou os filhos para serem “doutores”. A história da família difere de outras da comunidade, pois as oportunidades que apareciam eram agarradas. As conquistas deram progresso a família; Antonio é professor universitário e Doutor em Engenharia Oceânica, Elma é economista e presidente ativa da ONG. A exemplo do ocorrido com a família Alleluia, Antonio acredita que a comunidade precisa de oportunidades para alcançar o ideal desejado, pois eles estão dispostos a "fazer mais um pelo outro”.

Localizada no Jardim Vidigal, Rua 3, atual Rua Major Toja Martinez Filho, 128-A, Vidigal, na Zona Sul do Rio de Janeiro, uma população de 38 mil habitantes. Ocupa um espaço físico de 3 pavimentos com 240 metros quadrados, distribuídos para as aulas entre elas: dança, cursos de beleza, sala de biblioteca, idiomas e informática. Ainda, terraço aberto com a vista para o mar do Leblon e excelente visibilidade, em rua pavimentada e iluminada. Apesar de estar localizado em uma das áreas mais nobres do Rio de Janeiro, com grande valor imobiliário pela beleza de sua região e a privilegiada vista da praia de Ipanema, a comunidade do Vidigal é na realidade um bolsão de pobreza em meio aos bairros de luxo do Leblon e São Conrado. Entre seus maiores problemas a comunidade enfrenta, precariedade no atendimento educacional oferecido pelo estado, já que existe apenas um colégio público na comunidade e insuficiência de meios de transportes públicos.

O perfil da clientela da organização, é de um público classificado como IDI (Índice de Desenvolvimento Infantil) e o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), abaixo do aceitável, pessoas muito pobres em situação real ou potencial de vulnerabilidade.

Mais que uma família

10/12/2003 - Gisele Netto

 

Elma (E) fundou, junto com o marido Antônio, a ONG Alzira Alelluia para oferecer opções de lazer e trabalho no Vidigal

A comunidade do Vidigal ganhou um presente este ano: a inauguração da ONG Alzira Alelluia. Ocupando uma casa reformada, com 240m2 de espaço, ela oferece cursos profissionalizantes voltados, em sua maioria, para o público feminino. São aulas de cabeleireiro, manicure, depilação e estética, que atendem em média 60 mulheres daquela favela da Zona Sul do Rio. Fora a formação profissional, a instituição promove ainda aulas de lambaeróbica, capoeira e jiu-jitsu. E o que é melhor: os alunos pagam uma mensalidade a preços populares.

Fundada pelo casal Elma e Antônio Carlos de Alelluia, ela com 50 anos, ele com 52, a ONG é uma espécie de resgate da infância de Antônio. “Meu marido nasceu e foi criado aqui no Vidigal. Como deu certo na vida, quis ajudar a melhorar a comunidade a que sempre pertenceu”, explica a economista Elma, que é um misto de presidente e “faz tudo” da instituição.

A iniciativa é bem-sucedida. As aulas de manicure têm ampliado os horizontes de Carla de Souza Pereira, de 23 anos. Desempregada, ela faz unhas informalmente, dentro de casa. Entrou no curso em busca de aperfeiçoamento e pretende trabalhar em um salão de beleza em 2004. “Quero pegar prática e aprender a fazer unhas decorativas. A professora é ótima, super paciente”, diz ela, que já sabe fazer desenhos simples nas unhas.

Vidigal, comunidade privilegiada, tem vista para o mar

A casa em que funciona a ONG foi onde Antônio cresceu, e pertence à família Alelluia. Para a reforma, Elma e o marido investiram dinheiro do próprio bolso e pegaram um empréstimo de R$ 10 mil na Caixa Econômica Federal. O grosso da obra já acabou – e foi o que possibilitou à instituição abrir as portas. “Ainda falta uma parte do acabamento, algumas obras de expansão, material, uma parte do mobiliário, entre outras coisas. Por isso estou em busca de apoio”, explica Elma.

As obras começaram em fevereiro de 2002 e terminaram em meados de junho deste ano. O prédio tem três andares: no primeiro funciona a recepção; no segundo são as aulas de lambaeróbica, capoeira e jiu-jitsu, e no terceiro estão as salas de cabeleireiro, depilação, manicure e mais dois cômodos extras. A laje também é aproveitada: numa parte coberta está nascendo uma biblioteca e a parte a céu aberto virou um terraço com direito a vista para o mar. Os cursos acontecem de manhã e à tarde; as danças e esportes são à noite.

Independente das dificuldades, os cursos começaram em setembro - com a ajuda de amigos da família Alelluia e alguns professores do Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial). “Todos os professores do curso são profissionais dos ramos de atuação em que ensinam. E eles não recebem salário, mas uma ajuda de custo que vem da mensalidade que os alunos pagam, quando podem”, explica Elma. Quando os alunos não podem, Elma faz vista grossa e vai levando.

Cursos profissionalizantes

Dentre as favelas cariocas, pode-se dizer que o Vidigal é uma comunidade privilegiada. Por estar localizada num morro íngreme, na beira da praia, a região tem vista para o mar de São Conrado. Além disso, conta com uma Vila Olímpica e com o grupo Nós do Morro, dedicado à formação de atores. E o mais importante: a favela não é palco de conflito armado há anos, diz Elma.

Apesar desse quadro, o Vidigal é uma comunidade pobre e não foge à regra da carência de oportunidades para os moradores. Por isso, Elma e Antônio resolveram arregaçar as mangas e fazer alguma coisa para mudar esse quadro de exclusão. “Não existia um lugar próprio por aqui para atividades de cursos e lazer. A Vila Olímpica é ótima, mas é lá do outro lado do morro. E para quem não queria ser ator não tinha oportunidade. Agora já existe uma opção”, afirma a economista.

Francisca dá um trato no cabelo de Ilcima, que é aluna do curso de cabelereiro

Que o diga Francisca Maria, 47 anos, maquiadora autônoma. Ela estava com a clientela reduzida porque não tinha qualificação como cabeleireira e não encontrou ninguém para montar uma parceria. Agora está cheia de planos para quando se formar no curso. “Para mim é bom saber fazer cabelo porque aí posso fazer tudo junto, oferecer pacotes com descontos para os clientes. É uma forma de conseguir trabalhar mais”, explica.

A oportunidade de aprimoramento e de uma melhor colocação no mercado de trabalho representa muito para os alunos. Francisca é só elogios quando fala da ONG. “O curso é ótimo e o professor é excelente, muito bom e atencioso”, diz ela. As aulas acontecem às segundas e terças, das 13h às 16h. “Mas a gente sempre estoura o tempo, tem dia que a turma só sai às seis”, conta, sorrindo.

Para se formar, os alunos têm que ter seis meses de aulas nos cursos de cabeleireiro e estética. Manicures e depiladoras se formam na metade do tempo. A mensalidade garante aulas práticas e teóricas, material de aprendizado e certificado no final do curso. A ONG não cobra matrícula de ninguém, mas os preços variam de acordo com a habilitação escolhida. A mensalidade para quem quer ser cabeleireiro profissional é de R$ 20; futuras manicures, depiladoras ou esteticistas têm que desembolsar R$ 15 por mês; já quem quer fazer lambaeróbica ou capoeira paga R$ 12 e os alunos de jiu-jitsu pagam R$ 20.

Mesmo antes da formatura das primeiras turmas, alguns alunos já traçaram seus planos. Ilcima Felipe, 29 anos, é dona de casa e aluna do curso de cabeleireiro. Ela já foi ajudante em salão de beleza, mas não consegue emprego por não ter formação profissional. “Entrei para aprender a cortar e a pintar. Quero trabalhar num salão fora da comunidade e fazer cabelo de dondoca, para ganhar algum dinheiro”, diz, rindo.

William de Paula (E), professor de capoeira e lambaeróbica, diz que esporte também é educação

Se no início do curso de cabeleireiro as alunas serviam de cobaias umas para as outras, hoje elas já atendem os moradores da comunidade. “A gente corta, pinta, faz tratamento, escova. Às vezes tem tanta gente esperando para ser atendida que nós temos que espalhar o pessoal pelas salas de outros cursos, porque não cabe na nossa”, orgulha-se Francisca.

Para aqueles que têm receio de encarar as tesouras dos iniciantes, Ilcima e Francisca garantem que ninguém corre riscos. Segundo elas, até agora o maior acidente ocorreu com uma aluna, que fez um corte superficial no próprio dedo. “Todo mundo sai satisfeito. E não tem como acontecer tragédia porque o professor está sempre junto”, diz Ilcima.

Maria das Graças França Silva, dona de casa de 50 anos, testou e aprovou o resultado. Ela tinha passado um creme alisante e não gostou do visual: o cabelo chegou a ficar esverdeado. "Meu cabelo estava horrível, eu vim aqui para tentar consertar a besteira que fiz. O professor do curso cortou o meu cabelo, e servi de exemplo para os alunos. Ficou mil vezes melhor”, sorri.

Longe do tráfico

William de Paula, 24 anos, professor de capoeira e lambaeróbica, explica que o objetivo das aulas de dança e esportes também é educar. “O trabalho contribui bastante porque muitas vezes essas adolescentes ficam em casa sem ter o que fazer. A dança e a capoeira são formas de expressão, de extravasar uma energia que está contida”, afirma.

Gabriela (E), de camisa preta, não perde uma aula

Gabriela Lima Silva, de 14 anos, aluna da 6ª série do ensino fundamental, não perde uma aula de lambaeróbica. “Eu gosto de dançar, tenho jeito e vim para aprender. A dança ajuda na formação”, acredita. Ela faz aulas junto com uma amiga e uma prima: “O curso é muito legal. Até meus pais me dão a maior força”.

Na turma de capoeira são 20 alunos, e por acaso as vagas acabaram divididas igualmente entre os gêneros: são 10 meninos e 10 meninas. “As mulheres conquistaram espaço. Elas estão na capoeira, entram na roda, jogam, cantam e disputam para valer”, diverte-se o professor. Além do gingado, o que atrai as mulheres para a roda de capoeira é o gasto de energia. A atividade emagrece e modela as formas, segundo William.

Mas o maior triunfo acontece quando, através da educação ou do esporte, os professores conseguem mudar o rumo de uma vida que já parecia traçada – às vezes a marcas de bala. “O esporte recupera e tira do ócio. Já tive aluno que soltava fogos para o movimento (tráfico), e hoje largou tudo e está com a gente no projeto. Ele está sendo resgatado, e isso é uma felicidade enorme”, sintetiza.

Família Alelluia

O nome da instituição é uma homenagem à mãe de Antônio, já falecida. Segundo a presidente da ONG, Alzira era uma mulher humilde, mas batalhadora. Lavadeira de profissão, afirmava que criaria os dois filhos para serem “doutores”. Pobre, moradora de favela e negra, ela não se curvou às dificuldades impostas pela vida e pelo preconceito. “Meu sogro achava que o Antônio deveria ser pedreiro ou no máximo motorista, e que a irmã dele seria empregada doméstica. Hoje Antônio é um profissional reconhecido e a minha cunhada é dentista”, conta Elma. O pai de Antônio não agüentou a determinação de Alzira e foi embora. A lavadeira criou os filhos sozinha.

Elma está em busca de apoio

Antônio se formou na primeira turma da escola municipal da comunidade e hoje é doutorando da Coppe/UFRJ em Engenharia Oceânica. Casados há 26 anos, Elma e Antônio formaram uma família que realizaria todos os sonhos de Alzira Alelluia. São três filhos: o mais velho está se formando em Engenharia de Telecomunicações pela Uerj (Universidade do Estado do rio de Janeiro), fala inglês, alemão e é pianista; a do meio, Kenia, faz Psicologia na PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica), Pedagogia na UFF (Universidade Federal Fluminense) e fala inglês; e a mais nova, Luanda, estuda Medicina na Uerj.

E no que depender do empenho e do histórico pessoal da família fundadora, o futuro promete. “A gente sabe das necessidades da comunidade porque viu por dentro. Sabemos da falta de esperança, da carência de possibilidades. Mas sabemos também que sucesso não depende de raça ou de classe social, mas de oportunidades e força de vontade”, sintetiza Elma.

Até agora, a Alzira Alelluia só contou com o apoio das ONGs Moradia e Cidadania e Cieds. As instituições ajudaram a montar o curso de cabeleireiro, com doações de cadeiras e material de trabalho.

Para continuar a fazer o trabalho social no Vidigal, Elma está correndo atrás de patrocínio e apoio. “Eu quero colocar cursos de informática e idiomas, mas nós não temos recursos. Já temos espaço, o que é uma vantagem, mas preciso de doações de material, computadores, telefone, fax, tudo”, desabafa. Elma também está à cata de voluntários que possam apoiá-la na administração e nos cuidados com a ONG. “Às vezes tenho que vir aqui três vezes por dia e por isso não consigo buscar patrocínio ou parceiros”, lamenta.

ONG dispõe de salas para futuros cursos e começou biblioteca

A ajuda pode vir de qualquer pessoa, e Elma espera ainda com o apoio das empresas próximas à comunidade. “Precisamos sensibilizar os empresários do entorno, como o Hotel Intercontinental, para que eles dêem um lanche que seja. Qualquer ajuda é bem-vinda”, resume Elma.



 


© 2007 RJHost.com.br
SER - Alzira de Aleluia. Servir, Educar, Recomeçar.

Acessibilidade

Teclado: Menu Principal » alt+m | Conteúdo » alt+c Controles de Acessibilidade: Preto e Branco | A (Normal) | -A (Dininuir) | +A (Aumentar)